28 de set de 2009

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(Tempos atrás, contei esta história a uma amiga. Uma história banal de amor...)
O amor teima em nunca estar no presente. Coisa do passado: coisa de quem passava na minha rua sem me perceber ali parado no portão pronto para dar Bom Dia. Bons dias seriam aqueles, se não fosse o silêncio entre nós um muro que separava nossas casas na mesma rua. 
“Se esta rua, se esta rua fosse minha,
Eu me mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas bem brilhantes
Para o meu... para o meu amor passar...”
Ele passava todos os dias aqui, mas a rua não era minha.
Tudo começou com aquela atenção aos detalhes. Atenção não, tensão. O encontro dos olhares eram sempre tensos... Intensos, mesmo que fossem sem qualquer intenção. Dois seres que conjugavam o mesmo verbo. Estar no mesmo lugar ao mesmo tempo. A mera coincidência, de fato, me assustava.
Vivia com minha avó. Sua melhor amiga a visitava constantemente. Nessa constância, conheci seu filho caçula. Na verdade, já o conhecia por questões apenas de educação: Bom Dia, Boa Tarde, Boa Noite. Costume de cidadezinha do interior onde todo mundo se conhece. Mas, pude conhecê-lo de novo, melhor. “A felicidade está na ignorância” – diria algum filósofo pessimista: o conhecimento me trouxera a felicidade do amor mesmo que isso tivesse como consequência encarar a tristeza.
A seqüência de gestos delicados nos fazia mais próximos, até que as mãos, que tanto gesticulavam, tocaram-se. As conversas de janela a janela se intensificaram tanto que, em dado momento, emudecemos: de tão próximos, nossas bocas se encontraram. Um beijo. Um abraço. Um “Eu te amo” escorregando lentamente entre nós dois como se fôssemos nós da mesma corda bamba que nos prendia e nos amordaçava. O silêncio depois de tantas conversas foi um alívio para quem, como eu, não tinha mais assunto para puxar.
Tudo tão familiar. Sua mãe e minha avó, viúvas alegres, saíam para o grupo da terceira idade para divertirem-se, enquanto nós dois podíamos gozar de segredos numa cidade minúscula como essa. Porém, sempre me questionava:
Por que segredos machucam tanto? Não se podem engolir a seco segredos por muito tempo, pois se igualam a querer devorar, famelicamente, um prato de cacos de Duralex®. A duras penas, almoçava e jantava essa iguaria para fingir que nada acontecia no outro lado do muro.
Nunca me senti tão Berlim Oriental...
Neste caso, o muro não caiu. Ele queria cair em si e nada mais ter do que cada vida em seu devido lugar. Eu queria dar lugar a novas coisas que deveríamos ter. Nunca tivemos. Talvez, tivemos sim, mas foi tão passageiro... Ele então passava pelo portão sem me dar Bom Dia, Boa Tarde ou Boa Noite. Eu espreitava o movimento da rua pelas grades de ferro, em busca de algum sinal seu, mas nada! A rua esvaziava-se de pessoas e de sentido, enquanto eu me enchia de frustrações.
Ele tinha afazeres mais pesados do que os meus. Eu estava aos cuidados de minha avó, pois o objetivo era ter um ambiente tranqüilo para que eu descansasse, estudasse e meditasse. Ele precisava cuidar da fazenda da família sozinho. Minha família tinha um sítio, mas eu era pouco necessário lá. No entanto, ele tinha que estar lá, na fazenda, sempre presente. Eu pensava nele como um presente dos deuses, porém, no fim das contas, era só um presente de grego. Nem parecia um deus grego... mesmo assim, eu o adorava.
Alguns encontros tivemos na sua fazenda. Pegava minha bicicleta no intuito de fazer exercícios. Mentira! Ou melhor, verdade sim: eu exercitaria o amor. Quilômetros e quilômetros percorridos, chegava suando. Suando frio. As manhãs eram bastante frias lá. Mas, logo ele me aquecia com abraço dos mais calorosos que tivera na minha vida inteira. A minha vida inteira passava pelos meus olhos e me perguntava por que fui conhecê-lo só agora. Mas então... tudo dissipou-se como névoa da manhã que não conseguia firmar-se perante a luz do sol. 
Ele plantava café. Enquanto eu subia em direção ao cume de um morro onde sabia que lá ele estava, notava os cafezais lotados de grãos maduros. Queria-os em flor: coisa de amor que sempre nos faz desejar tudo à flor da pele. Ah! Tudo deveria ser flores... 
Contudo, um dia, sem mais e nem menos, ele me disse não.
Nem sabia por que não. Existiriam razões mais secretas do que nosso próprio segredo?
Algo que nem compartilhar comigo ele quis. Eu não entendi porque não contar. Eu que sempre prefiri contos a romances, percebia que esse romance nem tinha se estendido ao ponto de tornar-se um romance. Nem tinha um apelo televisivo para ser novela. História de pouca trama. Talvez, o amor desfiasse mais fácil se não fosse bem tramado. Então acabou... acabou sim. Assim, como se ele não conhecesse o significado de “The End” nos filmes hollywoodianos, pois os mocinhos deveriam terminar juntos. De fato, ele não conhecia mesmo isso. Eu acho que ele preferia a felicidade de ignorar tudo isso que eu tanto cultivava.
Eu, sem chão, decidi cortar o mal pela raiz.
Ainda bem que esse amor durou menos de um mês. Parece pouco tempo, sei. Mas, para mim, que nasci sob o signo de Áries, até que foi bastante.
Hoje em dia, quando visito minha avó, volto àquela janela, mas os sentimentos não voltam com ela. Quando o encontro, por educação, dou-lhe Bom Dia, Boa Tarde ou Boa Noite. Por outro lado, ele deve ainda ter um “Eu te amo” engasgado, pois algum nó parece amordaçá-lo quando ele tenta puxar algum assunto. Antigamente, resolvíamos a falta de assunto com um beijo. Agora, eu apenas sorrio e fecho a janela.

8 comentários:

Ausência Instável disse...

É digo o mesmo, o amor as vezes acaba sendo passado. Mas esse tipo de amor que vc sentiu, fica na recordaçlão.

Eu tive que ler tudo, e me identifico muito com alguns fatos de querer que tudo seja tudo tão perfeito, mas é de principio como esses que devemos abrir os olhos e sofrer desde já, antes de dqui para frente seja pior.

O que levamos disso tudo?
Um moral, uma lição de casa.
kkkk..

Tudo é fato, o que tiver que ser, tudo vai acontecer, e o que se deve lembrar ?
Só as recordações, porque creio que as emoções não voltam à tona novamente.

Como digo: " Confiança se conquista apenas uma vez".

Bom, é isso ai ..
É hora de virar sempre a página.

Abração, David.
Aparece ;)

Cibelle disse...

Lindo o texto... Ainda bem que você superou! beijos...

Cristiano Contreiras disse...

Sabes ditar o cotidiano, os sentimentos, és um bom cronista de nosso tempo! abs

Caco disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Caco disse...

É um conto? De ficção? Parece que sim. Pergunta-se isso para um autor? Como escreveu o poeta:

"thoDizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!"

Fernando Pessoa

Jay e Alê disse...

Wow Davi...
Cada palavra, cada ponto devidamente postos a nos prender nos transportando para o lugar comum do amor... Bonito! Cheio de sensibilidade...
Bju

Cocada.g disse...

Muito boa a história, e como sempre bem escrita. Nunca vivi um amor desse tipo, de querer dizer eu te amo sem ao menos pensar... é triste que o amor precise de duas partes, porque sincronizar é tão dificil, que chega a dar vontade de desistir! mas não desistimos não é mesmo?

Amigo passa la no blog que deixei um selo pra você, espero que goste!

abraços!

Mescla de culturas disse...

Muito bom o texto, adoro os detalhes...sendo um pouco descritivo até! Assim conseguimos entrar na história.
parabéns, cara !
Escreve muito bem !!!

Minha foto
Reino enquanto houver um Reino.

Espectadores

Aviso
Todas as pessoas mencionadas em meus textos tiveram seus nomes trocados para preservar a identidade alheia e minha integridade jurídica...
Afinal de contas, não quero ser processado!