24 de set de 2009

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Hoje, pensei em suicídio. Não o meu, que fique claro: deixei que minha mente elaborasse uma história cuja personagem principal decide por fim à própria vida.
Esse indivíduo, carregando a tiracolo um banquinho e um rolo de corda, parte em busca da árvore perfeita para se enforcar. Durante seu caminho, cruza com as mais variadas pessoas (ou bastante familiares, ou completas desconhecidas), que deixam ainda mais tortuoso o caminho que escolheu seguir.
Cada vez que se depara com alguém, o sujeito tem que confrontar as decepções que permeiam sua vida: talvez confrontar-se com as decepções seja a forma mais dolorida de angústia com a qual temos que lidar, no momento que só desejávamos um bom lugar para acabar com a nossa própria vida.
Tais figuras sempre se encontram sob a copa de alguma árvore; há as que o esperam, como a figura de seu pai ou da sua ex-namorada, e outras cujo destino se encarrega de colocá-las ali (como o caso de uma idosa a fazer calmamente seu tricô ou um homem que tira uma sesta corriqueira), exatamente quando ele se aproxima, na esperança de que descobriu a tão sonhada localização de sua forca.
Não consigo transcrever os diálogos que são travados entre essas personagens e ele. Não ainda. É cedo demais para afirmar do que são feitos ou do que se tratam. Apenas tenho como certo que são densos, duros, inflexíveis. Acredito que devam ser tão pesados que minha personagem chega a questionar a própria convicção de que anseia sinceramente suicidar-se. Faz parte do ser humano a relutância de certas certezas, afinal.
Será que ele tomou a direção certa?
Existirá realmente essa árvore perfeita?
Poderá o suicídio salvá-lo de toda a agonia que tem suportado?
Dada a empatia que se cria entre criador e criatura (assim, como Rodrigo e Macabéa, vide “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector), eu não reluto em dar logo um fim ao sofrimento de meu pobre herói: ele, finalmente, encontra a árvore perfeita.
Tronco denso, galhos duros, madeira inflexível, copa frondosa, folhas em tom de verde-escuro e o melhor: sem qualquer ser humano por perto para observar seu ato com repreensão.
Assim, sem pestanejar, ele passa a corda em volta do galho por duas vezes para dar-lhe maior firmeza e amarra uma das suas pontas em torno da peça de madeira que une um par de pernas do banquinho, repetindo o mesmo nó com a outra ponta na peça que une o par restante.
O banquinho, então virado de cabeça pra baixo, flutua um pouco acima dos seus joelhos. Ele puxa as cordas para certificar-se que estão realmente seguras e senta-se no banquinho.
Toma impulso e balança de olhos bem fechados. Uma brisa acaricia seu rosto entregue a um tipo indescritível de felicidade que nós sentimos muito pouco, pois são raras as vezes que se percebe sua existência: uma felicidade que, à beira de darmos um fim à nossa própria vida, surge para que nos demos, enfim, por inteiro à vida como se a ela (e somente a ela) pertencêssemos.

P.S.: Sim, já tentei três tentativas de suicídio. O pleonasmo não é gratuito, visto que nem cheguei realmente a concretizar o ato suicida para que fosse mal sucedido (ou bem sucedido, dependendo do ponto de vista). Contudo, contarei esses episódios da minha vida em outra ocasião, pois cada tentativa merece um texto distinto.

11 comentários:

Jay e Alê disse...

Oi Davi, passando aqui pra conhecer seu blog. O Yag nos indicou e valeu a pena vir te conhecer. Gostei do texto, vc escreve muito bem. Te indicamos como o Baby blog, ou seja o blog mais novo da blogosfera. Espero que vc não se incomode com isso. visita a gente lá no Ká Entre Nós.
Abraço e bem vindo a blogosfera!!!
Jay

Ausência Instável disse...

Caracas, fiquei curiosamente com vontade de ver esse final ... me deu uma ansiedade de saber em qual ponto chegaria, seja lá em dor ou libertação.
Entrei no clime das suas palavras e nao teve como perder atenção da discriminação.
Seja BEM VINDO, Novo Blogosfera.
Só aviso uma coisa, BLOG VICIA!!!

kkkk ...

Abração

Cibelle disse...

Oi!!! Passei para conhecer seu blog! Vim pela dica do Ka entre nós. Comecei o meu recentemente também em agosto. Seja bem vindo!!! E como disse o menino de cima, BLOG VICIA. beijos...

Jamylle Carvalho disse...

Por indicação do Ká entre Nós, visitei teu blogue.
Muito bom, menino. Adorei de verdade viu?
Você já está na lista dos blogues que leio.
Um abraço! ;*

FOXX disse...

interessante
gostei da metalinguagem

seja bem vindo a blogosfera

Caco disse...

Melhor que desistir é dar a cara pra bater e ver no que vai dar. A gente suporta. A gente supera. E sempre há coisas boas por vir.

Jay e Alê disse...

Oi Davi,
Bom Dia!
Vim agora calmamente reler o seu texto. Achei interessante a forma como delineou a história.
Rapaz a vida vale sempre a pena... os "tons" meio pertubadores e as sinuosas curvas que enfrentamos todos dias, podem dar à vida o exato sentido que precisamos... o exato contexto é como fazemos a leitura desses "tons" e dessas curvas sinuosas... o sentido meu amigo está bem diante dos olhos...
Acredito que é melhor você dar definitivamente um Shut down no PS que vc escreveu no rodapé do post. A Vaida vale mais....
Abraço
Jay

Lady Vanilla disse...

Por favor, não tente suicídio mais não!!!

Vim por indicação do blog do Alê e do Jay ( Ká Entre Nós) e adoooroorei o texto, fiquei na expectativa em cada passo em direção à "árvore perfeita". Beijão e com certeza, voltarei por aqui... Assim que puder, faça tuma visitinha ao meu cardápio, até mais...

Ryan disse...

Davi, conheci seu blog atravez da indicação do Jason! Adorei! Adoro textos como o que você escreveu... esses que nos fazem refletir!

Adicionado rapaz

Well Bernard disse...

Como você é insuportável!!! (Sim, eu já disse isso).

Além de tudo no segundo post já bateu records de postagens!!!

Você é muito chato!!!

Mescla de culturas disse...

"Hoje, pensei em suicídio. Não o meu, que fique claro..."

Bom começo
meio
fim !

parabéns

Minha foto
Reino enquanto houver um Reino.

Espectadores

Aviso
Todas as pessoas mencionadas em meus textos tiveram seus nomes trocados para preservar a identidade alheia e minha integridade jurídica...
Afinal de contas, não quero ser processado!