25 de set de 2009

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18 anos mal completos e calouro de Design. Único universitário entre os amigos de infância pois todos estavam no pré-vestibular. Nem por isso perdi o contato com eles. Aliás, visitava frequentemente Manuela¹, grande amiga dos tempos do ensino fundamental, que morava a menos de um quarteirão da minha república.
De tanto visitá-la, sua irmã mais velha já se acostumara com minha presença. Mariana, estudante de pós-graduação de Psicologia, fazia sala para mim enquanto Manuela não chegava. Conversávamos animadamente sobre Arte, Literatura, Psicologia e áreas afins. E quanto mais conversávamos, mais eu percebia que a nossa afinidade era bem maior do que aquela que existia entre mim e sua irmã. Com o tempo, visitava a Mariana em vez de Manuela, que nem se importava muito, já que estava apaixonada por um rapaz de sua sala que tomava todo seu tempo e sua mente.
Um dia, decidi convidar Mariana para um vernissage no principal Museu daqui. Sem demora, ela aceitou. No horário marcado, saímos em seu carro e fomos lá comer, bebericar um pouco, conversar com amigos e, claro, apreciar as obras expostas de um artista paraibano.
Levemente bêbados, decidimos esticar a noite em algum barzinho próximo a nossos lares, porque, inacreditavelmente, não faltava assunto entre a gente. Depois de algumas rodadas de chope, ela me confidenciou algo que não me deixou chocado, mesmo que ainda ficasse surpreso. Sim, Mariana era lésbica e tinha um namoro de quatro anos. Depois da revelação, pude perceber em seu olhar a vontade de que eu também me revelasse homossexual a ela.
Um pouco constrangido, uma vez que eu era heterossexual ainda, fingi que também era gay. Ela, obviamente, não acreditou, mas nem por isso me repreendeu; de certa forma, o laço de confiança já envolvia nossa amizade nesses tipos de confidências mais íntimas. Assim, perguntei quanto conheceria Fabíola (carinhosamente, Fabi) e ela me propôs que seríamos apresentados numa oportunidade bastante peculiar. Mariana disse-me então:
— Que tal conhecer a Fabi e, de quebra, ir conosco a uma Boate GLS (a sigla da época)?
Minha curiosidade foi duplamente instigada: queria conhecer Fabi e saber como era uma Boate Gay de fato. Por nunca ter entrado em uma, eu imaginei que eu precisaria adequar-me ao estilo de vestimenta e de atitude. Os poucos amigos gays que colecionei desde que entrei na Universidade eram todos descolados: pessoas cultas e bastante ligadas ao que de melhor existia em relação às Artes, Música, Moda, Cinema, Literatura e afins.
Enfim, supus que deveria vestir como um verdadeiro fashionista. Ou seja, camiseta suplex preta com costuras customizadas e estampa dripping prateada, calça vintage xadrez em tons cinzentos (herança de vovô), All Star clássico preto e um conjunto de acessórios prateados: anéis, bracelete, cordão de enormes bolas e protetor de orelha removível, já que meus pais jamais poderiam ver o próprio filho usando tais apetrechos.
Quando desci do meu prédio para encontrar Mariana, num vestido sóbrio porém lindo, notei um leve espanto em relação ao meu look. Contudo, achei que foi motivado apenas pela falta de convivência com aquele tipo de estilo. Fomos então em direção ao bairro onde Fabi morava e, todos juntos, partimos em direção a tal Boate. Engraçado que Fabi disse que eu estava lindo! Não sei até hoje se disse aquilo por ironia ou por gentileza. Na dúvida, gentileza sempre.
A ver o desconforto da namorada de minha amiga, falei que era gay para tentar quebrar o gelo. Mariana me desmentiu na hora, o que fez Fabi rir e deixar o clima mais descontraído entre nós. Logo, estranhei a demora para chegarmos ao tal local. Bairro distante da cidade vizinha, rua sem pavimentação, terrenos baldios em torno do imóvel. Tudo conspirava para que a Boate fosse bem moderna. Que ilusão!
Já quando entrávamos, pude observar que todos os homens vestiam camisas polo dentro da calça com cinto e sapato combinados, exceto por algumas drag queens e eu mesmo, que me vesti para ir a um clube londrino e cheguei a uma danceteria que parecia bem decadente.
Mesmo assim, meu entusiasmo não foi dinamitado nesse momento. Perguntei às garotas onde se localizava a pista de dança e apontaram em direção a um local contíguo ao bar, onde pedi apenas água, por medo do tipo de bebida que serviam ali. Quando pisei na pista, começou a tocar "It's Not Right But It's Okay". Óbvio. Não me dei por vencido e torci para que a próxima música fosse mais cool. Que desilusão!
Quem disse que pude dançar um só Drum'n Bass ou um House digno? (Por favor, "Hey Boy, Hey Girl" do Chemical Brothers, de 1999, e eles ainda nessa de Celine Dion Remix?! Tenha dó...)
Indignado, decidi juntar-me a minhas amigas para reclamar do que estava ruim. Foi só eu me sentar que apareceu Alessandro, uma bichinha do mesmo curso da garota de quem eu estava afim há algum tempo. Com um ar de surpresa e um risinho cínico na cara, me cumprimentou. Devolvi o cumprimento fingindo naturalidade. Na minha mente, só havia espaço para a frase "Não pode ficar pior".
Então, pior ficou.
O som ambiente foi abruptamente desligado e uma voz ao microfone anunciava o Concurso da Miss Gay Espírito Santo². Eu juro que fiquei sem reação: daquele instante em diante, perdi a noção do que fazia ali naquele buraco justamente na noite desse concurso!
Mariana notou meu desconforto e prometeu-me que íamos embora logo que escolhessem a vencedora. Por gentileza, disse que estava tudo bem porque estava me divertindo muito com tudo aquilo... Eu sou um péssimo mentiroso.
— Palmas para Naomi Kidman! Mais palmas para Naomi Kidman, meu povo! — esgoelava-se ao microfone o(a) locutor(a) do evento.
Escolhida a campeã, não nos detivemos por mais de um minuto naquela Boate. Fui embora com um sorriso escancaradamente falso no rosto e a certeza de que jamais pisaria novamente naquele antro!
Anos depois, ainda cumpro rigorosamente essa decisão.


¹ Os nomes foram trocados para preservar a identidade alheia e minha integridade jurídica (não quero ser processado afinal de contas).
² Sim, sou capixaba.

6 comentários:

Caco disse...

"...Um pouco constrangido, uma vez que eu era heterossexual ainda..."

Como assim? rsrs

Muio engraçado. Jura que cê vestiu aquilo tudo?

Cocada.g disse...

Nossa que frustrante essa situação hein? Eu nunca fui em balada Gls... confesso que tenho um pouco de curiosidade... mas pelo o que meus amigos comentam, não acredito que seja muito minha praia hehe!
vlw pela visita, te adicionei igualmente e gostei muito do seu blog. Lembra dos se's? Pois é, se eu tivesse tempo faria um igualzinho! Muito bom mesmo!
Abração querido!

Jay e Alê disse...

Que situation!!! E vc ahazou no look! não acha...?
Minha dúvida segue a linha de pensamento do Caco...
Mas gostei muito do texto e da forma como escreveu, pude ir fazendo um desenho da situação e quando o autor consegue me atingir assim, eu o chamo de "artista".
E vc é um...
Abraço,
Jay

Mescla de culturas disse...

Gostei tb to texto HAHAHAHA !
E RI TB
to seguindo aqui , abraços

Cibelle disse...

Muito bom o texto!!! Fiquei rindo e imaginando você todo sem graça com a roupa diferente de todos, rsrsrs... beijos!

Well Bernard disse...

Ufa, ainda bem que suas postagens estão ficando menos comentadas. Porque é injusto você ser tão insuportável ao ponto de ter textos super comentados, mas já é.

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Reino enquanto houver um Reino.

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Aviso
Todas as pessoas mencionadas em meus textos tiveram seus nomes trocados para preservar a identidade alheia e minha integridade jurídica...
Afinal de contas, não quero ser processado!